A jornalista toledana Edna Nunes da Silva esteve em Curitiba, ao lado de outros profissionais de imprensa do Paraná, para receber a premiação da 11ª edição do Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo. A cerimônia aconteceu na noite de ontem, quarta-feira (26), dentro da programação da Expo + Indústria, e reconheceu trabalhos que responderam ao tema desta edição: a produtividade na indústria paranaense.
Edna foi premiada na categoria Jornalismo Independente com a reportagem “A Nova Fronteira da Produtividade: Depois das Máquinas Inteligentes, a Revolução Chega aos Recursos Humanos”, publicada no Blog da Embaixada Solidária. O texto trata de um deslocamento que a indústria do Oeste do Paraná vem enfrentando na prática: com o parque fabril modernizado, o limite da produção deixou de estar nos equipamentos e passou a estar na disponibilidade de gente para operá-los.
A edição de 2026 recebeu 160 trabalhos inscritos, e o texto de Edna ocupou o segundo lugar no pódio da categoria. Ao longo de suas onze edições, o prêmio já reuniu mais de 1,5 mil reportagens, reconheceu cerca de 200 jornalistas e distribuiu mais de R$ 1 milhão em premiações.
A pauta nasceu no balcão
A reportagem premiada não começou em uma redação. Começou em um balcão de atendimento.
“Faz doze anos que a Embaixada Solidária atende migrantes e refugiados em Toledo. Nesse tempo, a frase que mais ouvimos é sempre a mesma: eu vim para o Brasil para trabalhar e recomeçar a minha vida. Só que essa frase quase nunca chega em português. Ela vem em crioulo haitiano, em francês, em espanhol, em árabe, em wolof, em russo. Durante muito tempo, a indústria não conseguia entender o que essas pessoas estavam dizendo, e elas voltavam para casa sem conseguir mostrar o que sabiam fazer. A pauta estava ali, na nossa frente, todo dia”, conta Edna.
O trabalho premiado acompanhou a experiência da Fiasul, indústria de fios instalada na região Oeste, onde aproximadamente 48% dos colaboradores contratados recentemente são migrantes internacionais. A reportagem mostra uma entrevista de emprego mediada por tradução automática entre a recrutadora Karen Brinker e a jovem haitiana Marie Natascha, de 19 anos.
Um trecho do texto premiado:
“A frase não elimina a saudade da família, dos amigos ou da vida que ficou em seu país. Mas devolve algo essencial para qualquer profissional: a possibilidade de demonstrar conhecimento, experiência e vontade de trabalhar sem que a língua seja o primeiro obstáculo.”
E, mais adiante:
“Em 1936, Charles Chaplin mostrou uma indústria que buscava adaptar o homem às máquinas para produzir mais. Quase noventa anos depois, a indústria paranaense começa a demonstrar que a próxima fronteira da produtividade talvez dependa do movimento inverso: utilizar a tecnologia para adaptar os processos às pessoas.”
Menos de duzentos gramas que mudaram o RH
A tecnologia que tornou essa cena possível foi doada à Embaixada Solidária pela empresária Fabiana Zielasko. Trata-se de um equipamento de tradução simultânea com inteligência artificial, capaz de trabalhar com praticamente qualquer idioma e que pesa menos de duzentos gramas.
O aparelho está em uso há seis meses. Com ele, a Embaixada Solidária passou a fazer a tradução do público que atende, oriundo de 47 países, antes que essas pessoas sejam encaminhadas às vagas de trabalho. Dezenas de trabalhadores já foram ouvidos com o apoio da tecnologia. O mesmo equipamento também intermediou interpretações em consultas médicas, em partos e em outros atendimentos em que a barreira do idioma costumava deixar o migrante sem voz justamente nos momentos mais decisivos.
Para a Embaixada Solidária, o efeito prático foi imediato. O que antes dependia de um colega bilíngue disponível por acaso, ou de um parente convocado às pressas para traduzir, passou a ser um procedimento. A doação de Fabiana Zielasko é hoje um dos instrumentos mais utilizados no trabalho de encaminhamento profissional da entidade.
O gesto da empresária foi discreto e teve alcance que poucos investimentos sociais alcançam. Um aparelho que cabe na mão devolveu a migrantes e refugiados três coisas que a barreira do idioma vinha tirando deles: o direito de ser, o direito de falar e o direito de serem ouvidos. Quem chega ao Brasil sem dominar a língua costuma ser reduzido a um formulário preenchido por outra pessoa, a um resumo feito por terceiros, a uma versão sempre aproximada da própria história. Com a tradução simultânea, o migrante volta a falar em primeira pessoa, e o que ele diz chega inteiro do outro lado, seja em uma entrevista de emprego, em uma sala de parto ou em um consultório médico.
Empregabilidade como estratégia
A reportagem premiada apoia-se em números que explicam por que o tema deixou de ser apenas humanitário. Levantamento do Programa Oeste em Desenvolvimento aponta mais de 22 mil vagas abertas na indústria da região. Ao mesmo tempo, dados do Observatório Regional de Governança Migratória mostram que o Paraná liderou, em 2025, a geração de empregos formais para trabalhadores migrantes no Brasil, com saldo de 21.023 novos vínculos, sendo a indústria de transformação o setor que mais absorveu essa mão de obra.
A experiência descrita no texto envolve a Fiasul, o SESI, por meio do Programa Indústria Acolhedora, e a Embaixada Solidária. A parceria organiza acolhimento, qualificação e encaminhamento profissional dentro de uma mesma estratégia, e é a ela que a jornalista credita boa parte do resultado.
“O Programa Indústria Acolhedora deu escala a uma coisa que a gente fazia artesanalmente. Quando a indústria entende que integrar um trabalhador migrante não é favor, é competitividade, o processo muda de patamar. Esse prêmio é da Embaixada Solidária, é dos voluntários e é dos trabalhadores que atravessaram fronteiras e chegaram aqui dispostos a produzir”, afirma Edna.
Décimo oitavo prêmio
Com o reconhecimento recebido em Curitiba, Edna Nunes da Silva chega ao décimo oitavo prêmio de sua carreira, entre jornalismo e literatura. É a terceira vez que ela vence o Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo.
Jornalista, escritora e ativista social, é fundadora e presidente da Associação Embaixada Solidária, em Toledo, e especializada em Migração, Refúgio, Deslocamentos e Empregabilidade. Ocupa a Cadeira 29 da Academia de Letras de Toledo.





