Antigo cemitério indígena em aterro de Foz do Iguaçu guarda história, inclusive de família de Toledo

por: Juan Matoso

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Um antigo cemitério indígena, que desafia o tempo e persiste como um vestígio histórico, está localizado na atual área do aterro sanitário de Foz do Iguaçu, no Porto Belo, região Norte da cidade. O local, sem informações precisas sobre sua origem, sabe-se que era utilizado para sepultar membros de uma pequena comunidade Guarani que vivia na área.

Com o avanço da urbanização e a expansão do aterro, o acesso ao cemitério para visitas não é mais permitido. A história do lugar, tão misteriosa quanto a vida após a morte, começou a ter algumas de suas pontas unidas recentemente. Vestígios do campo-santo foram localizados no aterro, e a professora Joana Mongelo Vangelista, moradora de Florianópolis, que possui parentes sepultados no local, compartilhou suas memórias.

Nascida em Foz do Iguaçu, Joana é de uma família de indígenas guaranis que veio do Paraguai e residia na área que hoje é o Porto Belo, antigamente conhecida como Segundo Distrito. A professora lembra-se da existência do cemitério desde criança e de sua mãe levando flores para homenagear o avô e os tios. Ela relatou que o cemitério era exclusivo dos guaranis, pois, na época, não havia pessoas não indígenas morando na região.

O Impacto de Itaipu e a Memória Jornalística

A partir de 1977, com o início das obras de Itaipu, a paisagem da região começou a mudar. Joana relembrou que “No rádio dizia: quem morasse perto da Itaipu tinha que ir todo mundo embora” e os avisos de explosões faziam as casas tremerem. Essa situação levou muitas famílias a deixar o local, embora a de Joana tenha permanecido por mais tempo.

Parte da história do cemitério foi registrada em uma matéria do jornal A Gazeta do Iguaçu, de 17 de novembro de 1999, assinada pela jornalista Sônia Inês Vendrame. O texto, baseado em entrevista com Francisca Recalde Mongelo, mãe de Joana, indicava que o campo-santo, situado na área do lixão, já estava ameaçado pela retirada de terras para ampliação do aterro. Francisca revelou que era um dos maiores cemitérios de Foz no início da colonização e a única lembrança que tinha de seu pai.

Naquela época, alguns túmulos ainda eram visíveis, e o único com identificação era o de Enrique Recalde, avô de Joana, datado de 1958. Francisca também relatou que parte do campo-santo já havia sido destruída devido à abertura de estradas e escavações para o aterro.

Um trecho da matéria informa que uma família inteira de Toledo foi enterrada no local após sofrer um acidente.

A Importância da Preservação e o Respeito à Ancestralidade

Para o professor de História da Unila, Clovis Brighenti, o campo-santo é um local de memória vital que conecta os indígenas com o passado e a ancestralidade. Ele enfatiza que o apagamento desses locais implica no apagamento da memória do próprio povo indígena. Brighenti ressalta que muitos cemitérios ficaram submersos com a construção de Itaipu na década de 1970 e que a atual geração tem o dever de proteger essa memória e os antepassados.

Segundo o professor, enquanto para os não indígenas o cemitério é visto como um depósito, para os povos indígenas existe um vínculo de ancestralidade, memória, história e continuidade do tempo presente. Ele defende a proteção, reconhecimento e valorização do campo-santo, o que também contribui para reconhecer a importância da história regional de Foz, que não começou apenas com a chegada dos militares no século XIX.

O secretário municipal de Meio Ambiente de Foz do Iguaçu, Idelson Chaves, informou que o cemitério foi descoberto entre 2000 e 2004. Desde então, o local foi cercado e isolado, estando situado dentro de uma área de preservação ambiental, a cerca de 200 metros da margem do Rio Paraná, com aproximadamente seis túmulos. Atualmente, o acesso é proibido devido à sua localização dentro do aterro sanitário, mas a intenção é mantê-lo preservado.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) informou que solicitou uma pesquisa arqueológica para o licenciamento ambiental de ampliação de um aterro sanitário em Foz do Iguaçu, e a análise está em curso. O IPHAN destaca a importância da participação dos grupos indígenas nas pesquisas para entender os valores simbólicos atribuídos aos achados e garantir decisões respeitosas com suas crenças e cultura.

Vale ressaltar que na Gleba Guarani, na região do Três Lagoas, outro cemitério indígena também foi esquecido e aterrado, hoje sendo uma pastagem para gado. Pesquisas indicam que os últimos enterros foram em 1973, e tentativas de tombamento em 1985 não tiveram sucesso.

Fonte: H2Foz

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